12.07.2016

CUBA SEM FIDEL; VARIAS EXPECTATIVAS

 
Che a esquerda e Fidel a Direita
  Durante esses nove(9) de cobertura pela morte de Fidel Castro, o líder da Revolução Cubana, acompanhei atentamente as manifestações contra e a favor sobre a vida daquele que é considerado uma das maiores personalidades da nossa historia contemporânea, independente de qualquer preferência, bem como, busquei avaliara a cobertura do noticiário internacional e nacional. Partindo dessas analise, resolvi reescrever um artigo que publiquei aqui, fruto de de uma conversa que tive durante um encontro com o 1º Secretario da Embaixada Cubana no Brasil, durante minha ultima passa por Brasília, num Seminário sobre COMUNICAÇÃO SINDICAL, organizado pela Confederação Nacional do Trabalhadores da Educação (CNTE).
      A trajetória de Fidel é de luta, progressiva, revolucionária e por si só já contraria interesse de capitalista e das forças conservadoras e reacionárias, representada pela parceria elite/mercado, que quando não veem seus interesses consolidados constrói suas narrativas para desconstruir personalidades, políticas ou sistemas que ameaçam suas regalias e seu status quo, para isso, elas se utilizam da mídia globalizada como sua porta voz oficial. Mesmo assim, observei o tom de respeito da mídia internacional, quando se referia a Fidel Castro como "El Comandante", "Ex- Presidente", "Ex- Guerrilheiro", Revolucionário e etc..,a exceção dos Estados Unidos é claro, que sofreu derrotas acachapantes, tanto do ponto de vista ideológico. 
       O que não me impressionou foi a narrativa da Rede Globo, que em nenhum momento usou qualquer um desses adjetivos, a palavra única e exclusiva utilizada foi  "DITADOR. Muitos podem argumentar que é um direito da emissora, mas ela é uma rede de comunicação que tem um concessão publica, então, teria a obrigação de ser imparcial, mostrando as varias versões dos eventos, mas preferiu o caminho da desconstrução, principalmente, por que sabia que iria encontrar maior receptividade na sociedade brasileira, que vive um momento robotizado pelo discurso de direita e reacionário. Por isso, deu destaque as manifestações de grupos de exilados nos EUA, mas ocultou de 2 milhões de pessoas comparecera só na praça de Havana para referenciar Fidel, ou seja 20% da população em apenas um evento, fora tantas outras até o destino final de seus restos mortais.
    quando disse que não me causou estranheza do posicionamento da imprensa nacional é, porque  segundo o socialista francês Louis Althusser não há leituras inocentes, posto que toda interpretação de temas e fatos que cercam nossa realidade, esta inevitavelmente relacionada ao posicionamento de classe, a perspectiva político-ideológico, aos interesses materiais e aos condicionantes culturais no qual o interprete está inserido. Eu e a grande parte da população brasileira sabe qual é a cartilha que a Rede Globo ler.

Juan Pousos
Mas vamos falar de cuba pós fidel, pois são varias especulções que se cria. Na minha ultima passa por Brasília tive o prazer de conhecer e conversar por quase 20 minutos com o Primeiro Secretário da Embaixada de Cuba no Brasil, o senhor Juan Pousos. E eu que sou um socialista convicto, naturalmente que  não ia perder a oportunidade de indagá-lo sobre a realidade da República Revolucionária Cubana, que naquela ocasião falamos sobre o momento tão crucial para aquele país, que é o inicio do processo da suspensão do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos e todas as nações que rezam sua cartilha, mas que por semelhante pode se trazer para uma Cuba após Fidel Castro. Numa conversa rápida e cheia de interrupções quis saber do senhor Juan Pousos, até que ponto essa abertura econômica e agora sem Fidel, irá afetar as crenças da sociedade cubana a respeito de suas convicções políticas, sua maneira de ser e sobre tudo o impacto disso tudo no modelo de sociedade.
Também não perdi a chance de perguntar sobre diversos temas tais como;  a presença do Papa Francisco nesses eventos, uma vez que ele já se mostrou um progressistas por natureza e mediou todo esse processo, além de escolher a ilha de Fidel Castro como o local de um encontro com o Kirill líder da Líder da Igreja Católica Ortodoxa Russa, que não acontecia a aproximadamente mil anos. Falamos do embargo econômico e político a Cuba, do estabelecimento das relações diplomáticas com os EUA e a primeira visita do Presidente Obama, além, da construção do Porto de Mariel na ilha com a participação do Brasil, tão explorada e questionada pela direita nas eleições presidenciais de 2014, mas que agora com o fim do embargo econômica da ilha perceberam que o Brasil se adiantou e deu uma carta  de mestre. É sobre isso e sobre a ausência material de Fidel, que vou tratar nesse artigo um pouco longa, mas também, não menos interessante e provocativo.
Todos conhecem um pouco da incursão de 80 homens comandada por Fidel e Cheguevara que devolveu Cuba aos cubanos, que culminou como uma revolução na ilha, e depois seu alinhamento com a União Soviética no bloco socialista durante a Guerra Fria fazendo com que as relações com os Estados Unidos fossem completamente cortadas. Desde então, de 1961 até hoje, um embargo econômico – dentre tantas outras restrições impostas pelos americanos – deixou os dois países em lados opostos. Com uma influencia maior o EUA vem tentando a anos impor ao povo cubano um estado de miséria e subjugar a ilha aos seus caprichos, mas não conseguiram minar a resistência revolucionária., que mesmo com tantas dificuldades financeira, tem o sistema de saúde e de educação como referencia mundial, talvez esse seja a o sentido do bloqueio, pois com as restrições financeiras Cuba se tornaria um modelo de pais a ser exportado para os quatro cantos do mundo, um sistema socialista, um terror para quem sempre lucrou com a exploração em todos os níveis.

Mas mesmo assim a resistência ideológica da ilha contaminou o mundo, impôs varias derrotas ao embargo nos órgãos multilaterais como a ON, g-7 e g-15, levando ao inicio do processo de suspensão do bloqueio, representando um risco uma fúria para os donos do capital, verbalizada em discursos raivoso pela elite e pessoas comuns que a porta voz desses grupos(a mídia) consegue manipular.   Mas estratégicos que são, o imperialismo americano mudou de postura para na passar por vexames e constrangimentos, o presidente americano pretende levantar o embargo econômico de vez e restabelecer as relações comerciais e turísticas com Cuba e junto levar valores e conceitos americanos para a Ilha. Por isso, acelera o processo para avançar nesse sentido, a exemplo da visita de Obama à ilha no fim de 2014, quando o mundo presenciou a aproximação histórica entre Estados Unidos e Cuba, anunciado pelos respectivos presidentes, Barack Obama e Raúl Castro, que  para o Juan Pousos representa a retomada de diálogo e a eliminação de resquício da Guerra Fria. No entanto, ela garante que isso na representa a mudança de pensamento do povo cubano, a cerca do modelo de sociedade, o ideário de homem político, da crença no socialismo como modelo ideal para se promover a igualdade entre as pessoas, a partir de políticas afirmativas com distribuição e renda e inclusão.  Segundo ele, a tempos a Republica Revolucionaria de Cuba vem se preparando para esse momento, que teve sua transição na passagem do poder de Fidel para Raul Castro e se consolidará em 2018 com a passagem para o sucessor de Raul. Outro exemplo que citou o Primeiro Secretário foi o discurso na Assembleia Nacional cubana de 2015, quando o presidente Raúl Castro disse que o país não está disposto a mudar o sistema político e não renunciará ao socialismo.
Primeira visita de um Presidente dos EUA
A primeira vista do Presidente Barack Obama foi emblemática em vários aspectos, pois após quase 90 anos e décadas de uma relação conflituosa, pela primeira vez um presidente americano fez uma visita oficial a Cuba, e quase que por ironia o de maneira estratégica a aparição do Presidente norte americano se deu em um palanque em frente a uma imagem gigantesca de Cheguevara, na qual mostra um Obama apequenado pelo ângulo da câmera. A titulo de curiosidade,  esse desenho que tornaria Che um dos ícones mais famosos e uma das imagens mais reproduzidas do mundo, veio de uma foto tirada no dia 5 de março de 1960, durante uma cerimônia fúnebre que homenageava vítimas da explosão de um barco em Havana, Cuba, o fotógrafo cubano Alberto Korda registrou uma imagem de Che em um momento de concentração, parado, em pé, com um olhar compenetrado. A foto ganharia, mais tarde, o nome de “Guerrillero Heroico”.
        Outro tema que perguntei foi sobre a participação do Papa Francisco nesse processo e o significado da sua presença para o povo cubano, ele se mostrou muito otimista, visto que o Papa se mostrou progressista, citando como exemplo o fato do papa ter recebido os 50 maiores lideres sociais do mundo no Vaticano, para tratar de economia solidária, entre eles João Pedro Stedile, líder do Movimento Sem Terra (MST).  Para Juan Pousos, no momento em que o mundo vive uma situação excepcional e delicada, fruto claramente de uma política capitalista agressiva, que desestabiliza governos eleitos democraticamente em busca de riquezas e mercados consumidores, descartando vidas humanas, a visita do Papa Francisco ao país de Cuba tem uma simbologia profunda. Pois para ele, apesar de Francisco reconhecer os grandes avanços em varias áreas das ciências, ele alertou para o sofrimento da humanidade com a fome, com a insegurança, doenças cada vez mais nefastas, migrações forçadas pela guerra provocadas pelas grandes potências, que procura solução no efeito e não na causa do problema, tudo isso tira a dignidade do ser humano, disse ele. Em sua fala ela atribuiu essa realidade nefasta a crença ingênua num sistema capitalista, na qual o mercado forte e livre resolveria todos os problemas, pois com o crescimento das economias todos seriam beneficiados, “liserfire”, termo que quer dizer “deixe fazer”, modelo duramente criticado pelo papa Francisco em sua primeira Carta de Exortação Papal.
A influencia do Papa no processo
      Esse modelo de desenvolvimento, aonde o mercado busca o lucro fácil a partir da exploração do outro, em que transformam as pessoas em resíduo humano, segundo as palavras do próprio Papa, no qual o indivíduo humano já teria passado da condição de material descartável para a situação de lixo humano. Esse sistema perverso que visa o lucro excessivo, o enfraquecimento de organismos internacionais multilaterais e humanitários, luta para fortalecer as grandes corporações econômicas cada vez mais globalizadas, tentando diminuir e desqualificar o papel na promoção do bem estar dos menos favorecidos e excluídos, a exemplo do que assistimos na Europa, em que os mais forte economicamente, para manter a hegemonia de suas teses pressionam os governantes de países mais pobres a sacrificarem seu povo para manter o status quó de uma minoria sedenta por poder, construindo um novo bezerro de ouro, o dinheiro. Para não dizer que estou usando a biografia do Papa Francisco para fazer proselitismo político, vou citar na integra uma passagem da Carta de Exortação Papal, chama  "A Alegria do Evangelho", em que ele diz no parágrafo 59: “Não à desigualdade social que gera violência”


“59. Hoje, em muitas partes, reclama-se maior segurança. Mas, enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os vários povos será impossível desarraigar a violência. Acusam-se da violência os pobres e as populações mais pobres, mas, sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há-de provocar a explosão. Quando a sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade. Isto não acontece apenas porque a desigualdade social provoca a reação violenta de quantos são excluídos do sistema, mas porque o sistema social e econômico é injusto na sua raiz. Assim como o bem tende a difundir-se, assim também o mal consentido, que é a injustiça, tende a expandir a sua força nociva e a minar, silenciosamente, as bases de qualquer sistema político e social, por mais sólido que pareça. Se cada ação tem consequências, um mal embrenhado nas estruturas duma sociedade sempre contém um potencial de dissolução e de morte. É o mal cristalizado nas estruturas sociais injustas, a partir do qual não podemos esperar um futuro melhor. Estamos longe do chamado “fim da história”, já que as condições de um desenvolvimento sustentável e pacífico ainda não estão adequadamente implantadas e realizadas”.
O encontro de Francisco com Kiril
Não menos emblemático que essa citação foi o encontro de Francisco com o Lidere Religioso Russo, Kiril, que não acontecia a aproximadamente a mil anos, depois que se criou a Igreja Católica Ortodoxa Russa. De acordo com o Secretário da Embaixada Cubana, o encontro realizado em Havana capital de Cuba durou duas horas em uma sala de reuniões do aeroporto internacional José Martí; Perguntei então, por que os dois líderes religiosos decidiram se encontrar em Havana, a capital de um país que até 1992 era oficialmente ateu e que é também a nação com menos cristãos na América Latina? Ele Respondeu sorridente que foi em parte sorte, mas também planejamento estratégico.
Segundo ele a sorte tem a ver com o fato do patriarca russo ter previsto viajar a Cuba ao mesmo tempo em que o papa Francisco ia ao México, e assim era prático para ambos se encontrar ali. Mas ele afirmou que o componente estratégico está relacionado ao fato de que a relação entre as duas Igrejas é muito influenciada pela história europeia. Essa relação precisaria de um novo começo. Por causa disso, a reunião não poderia ocorrer na Europa nem nos Estados Unidos. Cuba acabou se tornando uma grande escolha porque é amigável com a Igreja Católica, porque historicamente foi um país católico, mas também para a Rússia, porque foi o aliado mais próximo de Moscou no continente americano, afirma.

Vista aérea do Porto de Mariel
Por fim, conversamos sobre a parceria brasileira na construção do Porto de Mariel, com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES), que gerou um alarde danado por parte da direita no Brasil.   Nesse momento ele afirmou com uma propriedade que poucos brasileiros tem sobre o assunto, em função da contaminação política ideológica sobre esse debate, me mostrando números e perspectivas econômicas e comerciais para o país. Ele iniciou dizendo que o Brasil não deu dinheiro publico para Cuba, foi aberto uma linha de credito junto ao BNDES, no qual 80% dos componentes do empreendimento foram construídos no próprio Brasil, gerando 150 mil emprego ao país, com 440 empresas envolvidas, gerando uma movimentação de 800 milhões em exportações e serviços
Mesmo o governo brasileiro antevendo o fim do bloqueio a Cuba, em que o país se tornaria o parceiro econômico de primeira ordem de da Ilha, que aponta para a tendência de alta da população, que hoje é de 11 milhões de pessoas, alijada da economia internacional, mas que com o fim do bloquio representa um mercado em potencial para empresas brasileiras, a elite sempre fez duras criticas com discursos do passado. Mas hoje, frente ao GOLPE se consolidando, já começa mudar o discurso conservador e reacionário, pois as projeções sobre Porto de Mariel é de oportunidade ímpar para o comercio exterior do Brasil, pois se localiza a menos de 150 quilômetros do maior mercado do mundo, o dos Estados Unidos.  Sem mencionar, o planejamento da implantação de uma Zona Especial de Desenvolvimento Econômico criada nos moldes das existentes na China. Ali, ao contrário do que ocorre no resto do país, as empresas poderão ter capital 100% estrangeiro. Ele ainda afirmou, que o Itamaraty sempre buscou  completar uma de suas funções primordiais, que é expandir o mercado para as empresas brasileiras. Não é à toa, portanto, que o Brasil abriu uma nova linha de crédito, de 290 milhões de dólares, para a implantação desta Zona Especial em Mariel. Agora resta saber se com esse governo  Golpista e José Serra, no comando da Política Externa Brasileira, esse projeto terá continuidade ou será enterrado.
Sobre o que penso de Fidel resumo numa frase sua que me marca muito que a seguinte :“Esta noite milhões de crianças dormirão na rua, mas nenhuma delas é cubana". E sobre sua a trajetória histórica, mesmo que todos conheçam minhas convicções, não quero fazer prejulgamento e deixar que as pessoas busquem leituras diversas sobre sua biografia e formem seus juízos de valor, pois era assim que ele preferia, mas proferiu uma frase profética "A HISTÓRIA ME ABSOLVERÁ"


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